A sabedoria do “Ceiça” 

Flávio Resende*

 

Cresci, em casa, ouvindo que índio era “bicho preguiçoso”. Até o dia em que o destino me levou a estagiar, aos 18 anos de idade, na Funai. Lá, em contato direto com várias etnias e, sobretudo, escrevendo sobre políticas públicas em defesa destas comunidades, pude entender a complexidade do tema e como este estigma advém dos tempos de descoberta do Brasil.

Meus pais estavam errados. Os pais dos meus pais também. E provavelmente várias gerações que os antecederam. A cultura indígena desconstrói a nossa lógica de acúmulo de bens. Caça-se, hoje, o necessário para manter-se vivo. Em outras palavras, o agora é o que interessa. Amanhã é um outro momento, cheio de variáveis e novas possibilidades. Trocando em miúdos, é só mais uma outra lógica de enxergar a vida.

Ao visitar recentemente comunidades quilombolas, no Jalapão (TO), me deparei com realidade parecida: famílias contempladas pela natureza, com fervedouros em suas terras que atraem a atenção dos turistas maravilhados pelo fenômeno que só ocorre lá. E as benfeitorias? Por que não reinvestem ali parte do que arrecadam para maximizar os lucros com a exploração dos atrativos turísticos? A resposta de um deles – o “Ceiça” – parece frágil sob a nossa ótica capitalista, mas é de uma simplicidade e sabedoria que impressionam: “Pra que? Muita gente sai daqui, corre, corre na cidade grande pra ganhar dinheiro. Luta feito doido e, no tempo livre, volta para a natureza para relaxar no fim de semana e fazer o que mais gosta – pescar. Prefiro ficar por aqui mesmo e seguir pescando todo dia. Assim, encurto o caminho”, responde sorrindo.

 

Neste instante, me senti um idiota. Era exatamente o que eu estava fazendo lá. Este desconforto me fez refletir sobre como iria desconstruir esta engrenagem a que fui submetido culturalmente e que me distancia da premissa de que precisamos de muito pouco para sermos felizes. E que as coisas mais estruturantes de nossas vidas não são coisas.

 

Em resumo, fica cada vez mais claro que o mundo seria diferente se a nossa cultura privilegiasse o presente em detrimento do que está por vir. Que importância você tem dado à sua presença nas relações e para as escolhas que faz hoje? Por que sentimos necessidade de controlar o amanhã? Até que ponto a nossa ansiedade nos empurra para o futuro e nos desconecta do agora? O quão disposto você está de abrir mão do que a lógica capitalista lhe oferece? É, pelo jeito, o “Ceiça” – aquele mesmo que anda de “motoca” pelas ruelas de Mateiros (TO) e que passa grande parte de suas tardes no aconchego da rede, entre as folhagens de seu paraíso natural, já avançou nestas reflexões. E, numa hora dessas, deve estar entre um cochilo e outro, preocupando-se se no dia seguinte fará sol ou não para receber seus turistas, com um sorriso de orelha a orelha.

  

*Flávio Resende é brasiliense, comunicador, jornalista, empresário na área de Comunicação Empresarial, coach ontológico e aprendiz das coisas do sentir e de tudo mais que couber nesta vida.

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