O que a ingratidão revela sobre nós

 

A ingratidão fala muito sobre nós. Ela revela um lado sombrio, frio e insensível que descortina nossa incapacidade de reconhecer que não somos nada sozinhos e que, involuntariamente, precisamos um dos outros a todo momento.

 

É desafiador, de fato, ocuparmos nosso espaço no mundo, galgarmos nossa trilha rumo ao ápice de nossas aspirações, sentirmo-nos mais seguros diante das adversidades e não perdemos de vista a nossa origem, de onde nos constituímos e quem nos estendeu as mãos quando mais precisamos.

 

Nos últimos anos, vivi experiências amargas com a ingratidão. Elas me fizeram entender que, às vezes, as pessoas mais próximas a nós podem ser as mais suscetíveis a nos decepcionar.

 

Neste momento, o importante a fazer é entender que este, infelizmente, é um risco que corremos a todo instante e que, se genuína, nossa postura ao menos pode impactar positivamente a vida de alguém.

 

Escuto, desde criança, em casa, o quão necessário é sermos gratos. Reconhecer nossa incompletude e necessidade de cooperação com o mundo à nossa volta denota maturidade e altruísmo. Reflete, ainda, a amplitude do nosso campo de visão acerca do repertório que vamos acumulando dia após dia e do quanto somos seres codependentes e interligados.

 

A quem é grato, genuinamente, a vida recompensa e tudo parece fluir com menos quiebres e entropias. É como se o movimento da vida fosse cíclico, e o amanhã dependesse da forma como conduzimos as relações e as escolhas hoje.

 

Sou grato a uma porção de gente na minha vida e também a situações que à época não faziam sentido, mas que indiretamente influenciaram no homem que me tornei hoje.

 

Quando criança, tinha poucos estímulos positivos. Havia uma tendência de ser muito criticado em minha casa. O resultado disso era insegurança e baixa autoestima. Um dia qualquer, na escola, uma professora de Português – disciplinada, doce e muito exigente – me fez um elogio em relação ao meu modo de escrever. Valorizou minha sensibilidade, criatividade com as palavras e meu jeito particular de expor minhas ideias e modo de pensar.

 

A atitude da docente, mesmo que despretensiosa, foi determinante para a escolha da minha profissão de jornalista. Batia no peito, com orgulho, nos tempos de definição de carreira (na iminência de prestar vestibular) que tinha certeza do que seria na vida – mesmo a maioria de meus colegas indecisa em relação à escolha que, em tese, refletiria no futuro de todos nós. Salve a professora Sidrid, que, sem perceber, mudou o curso da minha história.

Recém-formado, tive uma oportunidade de ouro: fui contratado e, em pouco tempo, assumi a liderança de uma equipe, aos 21 anos de idade, numa importante entidade de classe da capital federal. Dediquei-me ao máximo, entreguei o meu melhor e, passados alguns anos, com a troca de diretoria, fui dispensado, sem uma razão pré-existente. Sentindo-me injustiçado à época, canalizei a minha energia para a estruturação do meu grande projeto de vida: ter a minha própria empresa.

 

 

Dezessete anos depois, cheguei aonde desejava graças também àquele que me demitiu; e pude me dedicar à Proativa, agência de Comunicação que sonhei um dia estruturar e que imprimiu em sua identidade a gratidão a clientes, colaboradores e parceiros.

 

Outro exemplo concreto (e curioso) de gratidão na minha vida é a história que eu sempre conto sobre a minha ex-sócia e melhor amiga. Quando ninguém acreditava que seria possível, ela abandonou o alto posto de executiva para se aliar a mim, na edificação da empresa, mesmo quando ninguém (nem a minha família) acreditou que seria possível. 

 

Parece simples, mas não foi. Abrir mão do concreto para investir no sonho do outro é algo para poucos, para quem tem coragem e sente a fluidez dos caminhos que a vida apresenta compulsoriamente.

 

Hoje, tenho total clareza de que não teria alcançado – por mais preparado e esforçado que eu fosse – o resultado até aqui, sem o apoio da Silvia. Sou ou não um homem de sorte?

 

Ilustrar os presentes que recebi da vida até aqui não é tarefa difícil. São incontáveis. O desafio maior é ter a consciência de que a gente também pode deixar de ser grato com o outro. Por isso, a necessidade de estarmos sempre atentos.

 

E você, como tem conduzido as suas relações? De que forma tem expressado sua gratidão para com o outro? Como pode nutrir seu coração de gratidão em relação às situações e pessoas que são, fundamentalmente, estruturantes em sua vida?

 

Os caminhos são individuais. Cabe a nós sustentarmos este estado de espírito ao longo de nossa jornada. Nem sempre será fácil, mas, vá por mim, isso pode fazer total diferença, tornando-nos mais leves, humildes, amorosos e conectados com a gente mesmo e com tudo que nos tangencia e dá sentido à nossa forma de atuar no mundo.

 

* Flávio Resende é jornalista, empresário na área de Comunicação Corporativa e coach ontológico.

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